sexta-feira, 2 de julho de 2010

Moça

Sinto tua vontade logo ao te ver chegar;
Noto quando teus olhos riem calados,
Tua mão gélida esconde a alva face tímida
Que com um sorriso entrega teus desejos

És bela e goche - esperta e ligeira: perfeita.
Vem, te chamo, mas não respondes, só olhas, lívida
Teu homem há muito se foi; não volta cedo
E com poucas palavras me esperas deitada

O doce tom desta tua fala contrasta
Com a minha funesta vida desgarrada
Que há muito clama por uma noite devassa
No bar: taça, vinho, fumo, vida, morte.


sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pedido à ti

Sou teu subordinado, minha flor
Contudo revolto-me perante tua apatia
E por me esconderes a face
Mostra-me o quão covarde és

Então como esperas o digno respeito?
Se ao tentares apresentar austeridade
Trai a ti mesmo em pueris atitudes
E é o riso que despertas, não admiração

Ó, estúpida flor, o quão triste és
Se te rendes a tão vis prazeres
Se te rendes a tão funestos desejos

Volte, volte a ser a de outrora
Que suscita beleza e traz luz
Oposta à tua torpe fronte de agora

quinta-feira, 3 de junho de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

Maria

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora,
Quando vem passear-te pela fria.

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata toda a ligeireza
E imprime em toda a flor sua pisada

Oh, não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

(Gregório de M. Guerra)

As inconstâncias do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se de constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

(Gregório de M. Guerra)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Rosa

Quando os olhos fixam inertes
Com a cor habitual manchada d'agua
Ah, nunca em tal jardim se ouviu
Mas sabemos o que o silêncio nos diz

O que o olhar deixa ao passar
Ou com que a água mostra ao beirar os olhos
Ou o que seus sorrisos dizem
Mesmo que som algum se faça soar

És ingênua, pálida, rosa
Mas tuas pétalas, ainda à luz da lua
Sabem com um que de torpeza

O quão forte as estações pisam
E com sua razão perene
Levam tua efêmera e frágil beleza.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Doce

A mão sobe, balança
E então brilham, os olhos
Se vem dentes brancos
E vermelha, face, Clara
Ágeis, os dedos contornam
Lugares quentes acham
E risos e suspiros fazem
Sem som, seu som se faz
E quando ar falta problema não há
Passam horas e em minutos
Ao círculo segundo são julgados
Por Minos, ó desgraçados
Juntos continuam a mímica
Como o mar o faz durante o ano
E quietos terminam sentados
Observando, observando
Mudos, os dois conversam.